terça-feira, 10 de junho de 2008

Chove Sangue no Céu

Janelas me dão medo. Pelo lado pejorativo, ou não. É através delas que olhamos o mundo. É através delas que vemos o quão fracos somos na imensidão, o quão miseráveis somos como seres humanos dentro do universo, o quão assustados somos do outro lado. Eu olho a janela e me enfrento: um passo à minha vida. Na eternidade, os fantasmas vagam atrás desse vidro seco. E hoje, a chuva densa cai mais densa do que nunca. É como o vinho que tomo. Do outro lado vejo o nada fundido, ele me absorve e me assusta. Uma cena macabra de pedaço de vida que me faz estar mais perto da infinidade. Meus olhos ardem no silêncio da noite, estou sendo com medo de mim. Eles acham que estou louca, mas nada pior que fugir. A loucura ínfima numa noite escura e chuvosa atrás de um vidro rígido feito meu coração. Talvez o que eu penso nem importa, mas os átomos ao redor dizem-me que o silêncio fatal que sai desse momento é mais virtuoso e perplexo que as palavras de sonhos que saltam da minha boca fechada. Da minha boca com gosto de vinho tinto seco. De mim com vontade de desaparecer completamente, e eu disse: pior que a loucura. Mas a janela é tão grande, tão intensa, tão solitária. Como eu queria que não existisse. A janela dentro de mim se fecha como o que não sou antes e depois.
Minha vó me ligou hoje. E minha vó disse: você pode viver 1000 anos, mas você sempre, em qualquer ocasião, vai perguntar o porquê que isso acontece com você. Não imaginava minha vó falando-me isso. Nessas palavras. Malditas sejam as palavras. Não quero estar dentro, mas estou, e ouço-as com tanta atenção e fugacidade. Por quê? Destrua todos teus conceitos e te atire na imensidão ao teu redor. Eu nem estou aqui. Fique tranqüilo, tua vó é mais inteligente que qualquer um dos teus conceitos. Na ingenuidade de uma palavra de benção, no silêncio que sai dos ossos.
É o que acontece na tua mente, que sempre te derruba, que me derruba. E como. Eu não me importo com tua presença, mas tu te importas com a minha. Eu sei que sim. Sentes-te um pouco tenso. Eu passo tenacidade incrível e tu te perdes incomensuravelmente nas sinapses do teu cérebro e corpo. Sinto-me com medo, afinal, a janela ainda está aqui ocupando minha retina de tal ferocidade que perco.
Faça-me pular no ar, mantenha a eletricidade nos teus olhos de tal maneira que... ah!A chuva molha tudo lá fora: molha o mundo. Pingos carregados de fúria solstícia. Como o espaço junto com o vinho, saboreio-o com cuidado, até dar indigestão.
Meu pai ligou hoje. Queria saber como eu estava. Eu disse a ele: Quer saber? Péssimo. Ele está preocupado, eu sei. Até que me sentei na frente dessa janela abismática para anestesiar com mais medo meu medo. Nada como mais isso para curar isso.
O ser humano é sozinho. No fundo resta um pingo de líquido amargo vermelho em forma de veia pulsante cardíaca. Isso é como tudo se resume: um pulo à ser. Tem alguém lendo meus pensamentos agora, eu sinto. Deve ser o vulto alvo atrás da janela. Malditas sejam as janelas. E abençoadas. Dão-nos tantas oportunidades. Depois nos fecham no êxtase da vida, e nos fazem afundar num poço sedento por felicidade. Suga as memórias e passa num telão à frente. Tanta coisa para controlar, e sempre tem algo errado. Minha vida tão confusa. Oh! Meu cérebro borbulha em sonho impossível. Porque o sonho sempre é melhor que tudo?
Eu queria viver mais que viver. Eu queria ser mais que ser. Eu queria sentir mais que o limite. Mais que o limite do ser humano. Eu queria sentir tanto que minhas mãos trêmulas iam sentir orgasmos múltiplos assim como meu corpo todo apenas de respirar, assim como meu auge de sensação. Mas de repente, se vai. Vai-se junto com o oceano. Pelo oceano junto à mim.
Aqui eu venho. E meus sorrisos altivos trancafiados atrás de minhas olheiras. Um ensaio ao que me resta: jazer. Todo esse preparo. 29 anos para pensar e acabar assim. Com o oceano. Eu vou junto com ele e fecho definitivamente todas as janelas ao redor, inclusive ao interior. Para sempre. O veneno esta perto.
Hoje minha mãe me ligou. Pediu se eu queria jantar com ela. Pediu se eu queria macarrão. Eu disse que não. Disse que não estava com fome. Ela deve estar sozinha agora, amarga sem saber. Seca por dentro sem notar. E isso é bonito em tudo: o ser humano é tão melancólico que sua melancolia nem aparece mais. Torna-se rotina. Azarados os que a sentem feito uva podre: acabam assistindo suas vidas em frente a uma janela medonha. Um fim sublime para alguém que nem foi tão assim. Imagino minha mãe assistindo novela agora, torcendo e se iludindo por vidas impossíveis. Pobre mulher. Ela sentirá falta.
Acredito que chegou adeus a tudo. O veneno parece suave perto da morbidez do espaço agora. Um último suspiro, um último gole de esperança. Quando eu estiver lá, dentro do vidro seco da janela, trancado com os fantasmas que senti tanto medo em vida, assustando agora outros seres, assustando-te com minha face alva, mando notícias. Chove sangue no céu.

2 comentários:

ReBordosa disse...

júlia... foi tu que escreveu isso?!

foi?!

Anônimo disse...

pqp juh! Nunca esqueça "Se nada der certo viro poeta"

ioauwiaowiaouwoiawioaw


bem foda o texto! :D