Deixa-me te tocar com alguns sussurros entre linhas, entre sonhos escritos com tinta de mim, entre o inesperado esperado destino que nos concebe e nos faz delirar. Delírios de amor, de pecados, de tudo que é sujo, profano, belo, numa mistura sem coesão de libélulas e rosas verdes, esmagadas por lágrimas universais desatinadas. Deixa-me te tocar com minha mente humana, cansada e deliberada, entupida de sentimentos e percepções inexplicáveis, incansáveis. No entardecer de vida, quanta coisa acontece, os momentos mais estupendos que alcançam a alma, um pingo de luz borrado com o sol do agora. Num suspiro no ar a sensação do ócio, dos passos sozinhos mascarados, da deprimente cena das relações, do passado colecionado, na mais profunda realidade de ser.
Cuspindo em mim mesma, deixa eu te tocar. Deixa eu te estragar, como dizem, te virar, instigar a inspiração e te atirar na sarjeta da vida, no nada obsoleto senso de viver, deixa.
Os suspiros, o entardecer, a sopa de libélulas com rosas verdes formam o veneno que me injeto e que uso para te maltratar, pois deixa eu te injetar junto, com teus rancores, tua inocência perdida, tua mania de enciclopediar o mundo.
Deixa eu te tocar, te sujar de colorido, te mostrar outro lado melancólico, estranho, deixa eu te sujar com vida. Vai, deixa. Deixa eu te tocar.
Mas no fim, tu me tocas mais, me deixas triste ao redor de estrelas caídas, pois quem te toca é tu.
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