Diz que tem um cabeludo de ressaca trancado no quarto ouvindo música até as lágrimas secarem de dor por amar sem ser amado, beijar sem ser sentido, falar sem ser ouvido, revirando e dissecando o coração quebrado, o momento que poderia ter sido e que perdeu dentro de um copo de vodka. Diz que tem uma menina, debruçada sobre o computador, a amada do cabeludo, chorando por outro que a trocou por uma garrafa de vinho na mão de outra, e nem quer deixar ser, não quer liberdade do amor, porque ela é tão linda e moderna e se diz outra pessoa. Diz que tem uma senhora sozinha numa casa imensa e planejada no alto de um condomínio elitizado, comendo refogado de berinjela, assistindo à televisão, esperando seu marido voltar de viagem para ter a quem irritar. Diz que tem esse outro alguém que viu, na outra noite, o cabeludo correr de cuecas pela rua, este completamente alcoolizado, aquele agora deitado no sofá confortável, o qual poderia ser um balde de lágrimas presas e mornas.
Tem também uma mulher que repete para si mesmo enquanto veste um traje preto com rendas, calça um sapato aveludado, atarraxa um brinco prata brilhante: apenas por uma noite. Enquanto isso, a filha do presidente quer ser normal e há um estranho no ninho, um recém nascido no inferno, uma aberração das próprias idéias, uma lagarta podre, cinco aranhas desalinhadas, um homem vertendo amor impossível.
Tem tudo isso, e muito mais – das vísceras ao céu. De um milhão de símbolos corroídos, esmiuçados com mundo. Porque chega um momento que o estado natural arde: nunca consegue ser sentido; a vida apunhala a alma e corrói o ser. Momentos de reclusão exalam um vento abafado sufocante, mesmo que o diálogo-eu pareça prudente, alguma maneira se procura de simplesmente ser. Alguns não entendem; julgam pedras e rochas, que quatro paredes surpreendem a mente depois de tanto observadas. Então se inala gente, se cospe sonhos, se extrai do fundo das veias algum pulsar eloqüente: se ignora o ser, de saber como ou porque, viver para viver, longe do que se espera.
Caminhando como um inseto cortando o dia, a noite, o tempo que não é, todos os pensamentos escoados em arte, lágrimas, sorrisos múltiplos, sofás confortáveis, líquidos embriagantes. Como se quisessem se encapar e não sentir o estado natural, que talvez seja, a própria droga natural, ardido numa sutileza tão ínfima que ninguém percebe, onde o intenso não é explorado; que é envolto pelos um milhão de símbolos e eu pergunto: como não o envolver? Senti-lo é tão doloroso se não bem sentido, se não bem filtrado. Tentativas, refogado de berinjela, morte, ignorância de se perder em tudo ao redor, em tudo por dentro. Quando é explorado, numa sensibilidade exaltada, desaba em mentes fracas por não o perceber.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Velhas cores
Desaparece em 6 dias, reaparece em qualquer canto, o que se fez, de quem me fez...
No sangue flácido, nas unhas cereja, no coração verde feito mato, parasita em mim, anilina pingada: me faz azul, nas velhas cores, porque notas incertas pulsam os sabores-sorrisos, das velhas impregnadas cores, de quem me faz, de quem se faz...
No sangue flácido, nas unhas cereja, no coração verde feito mato, parasita em mim, anilina pingada: me faz azul, nas velhas cores, porque notas incertas pulsam os sabores-sorrisos, das velhas impregnadas cores, de quem me faz, de quem se faz...
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