segunda-feira, 22 de novembro de 2010

BORBULHA – ele berrava aos pulos de pés descalços em meio a uma fumaça escaldante – vamos, borbulha , borbulha – e seus braços se abriam e seu rosto se iluminava; um cristo salvador de vulcão imenso, enrustido por fuligem; um abominável homem do fogo. Pisando nas pedras ardentes, com os dedos arqueados, ele fazia seu peito inflar, suas têmporas saltarem: BORBULHA PRA MIM!

O som arrebatava o ar derramado; enrolava-se incandescente, todos os gritos, todos os pulos, todo o sangue, pulsando na mais perfeita eloqüência derretida, fluindo como as lavas, com o ar suado, com o sonho de morar ao lado de um vulcão; tipo tigre de savana, numa ilha seca –e todas aquelas rochas e toda aquela lava. Temendo a emulsão dos sentidos de não sentir, de noite fincava seus pés imundos nas rochas que o contornavam – a si mesmo e ao vulcão. Observando aquele organismo deslizar em dourado da mais intensa ordem, com o nariz apontado para baixo, de quando em quando pulando aos berros, ou rindo ao gozo, ou mergulhando ao ínfimo, ele explodia junto. As noites mais brilhantes que poderia querer.

A cara na chama, nado sincronizado, quase não ser. Poder ser pássaro-peixe de fogo que não se cansa, flamejando por ai; era isso: se pendurar, se balançar, gritar: BORBULHA! ISSO SE CHAMA ORGASMO MUSICAL!

as vezes eu sinto a necessidade de me fincar na terra.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Conversa de retalhos

A renda era toda trabalhada, enroscava-se com o tempo e com a pele: do altomar dava pra ver. Morena bonita calada, cadê teus tecidos? - É que eu sou pra dentro, meu bem.
Desalinha o recorte, revira as múltiplas sensações, o impreterível sumo de ser - late, morde, grita, cose. Escancara para o mundo tuas rendas, mulher.
E o vento correu, vrum.
- Só se tu mostrar a tua verdadeira cor, meu amor. Que pálidos somos os dois, eu para dentro de mim e tu de ti, e então eu pergunto: trapo velho? Ou simplesmente medo de colorir? Eu desato a sorrir e a brilhar de intenso, no submundo de mim, toda trocada, toda florida. Ninguém entende meus tecidos.
- Pois tens pele, mulher. Tão frágil. Eu só queria amar teu desalinho, mas me deixas tão ausente enquanto transpareces todas as sensações: teu olho, olha ai, tuas cores iluminando a rua até o fim.
Um botão se soltou, pim.
- Pois como então descosturar esse marasmo meu amor?
Uma árvore moveu, uma onda estorou, POFT, junto com o céu seda azul, e o pássaro cetim branco, e a areia diamante vívido - peixe grande.
- Isso, mulher, só o tempo-amar dirá.