sábado, 25 de dezembro de 2010

não-feliz natal

FELIZ NATAL

O cheiro de feijão requentado expandia pela cozinha apertada e escorria pelas paredes de madeira recém pintadas. A mãe de Adalberto mexia nas panelas com destreza, enquanto o cachorro puddle descansava ao lado da porta e a chuva insistia em se esconder. De quando em quando a avó abria o forno para ver os panetones quase prontos, bem douradinhos, e as vozes das crianças se misturavam com cheiro de panetone e feijão.

- Adalberto ! – gritou a mãe limpando as mãos com toalha de pano.

O guri chegou na cozinha patinando, no auge dos seus 16 anos, toda testosterona e as espinhas e o cabelo bem arrumado para as outras gurias perceberem.

- Tô com fome mãe. – respondeu a não-pergunta com voz de mudança. Mudança.

- Depois do almoço eu quero que tu vá lá no centro e me compre um porta-retrato para dar para tua tia de Natal, com aquela foto que nós revelamos ontem. – parou de dançar na frente da pia, olhou para o filho com ar de cobrança terna – Tá bom?

Ele fez uma cara de “pensar em hesitar”, mas aceitou a não-proposta – e quanta negação – balançando a cabeça para baixo com seu corpo esguio meio torto de tanto crescer.

- Vai lá naquele 1,99 que o pai comprou o rádio contigo o outro dia e pega 2 pila na minha bolsa. – continuou mãezinha querida se voltando para a sinfonia das panelas com chama e cheiro bom.

Eles almoçaram em um quase silêncio. O calor ia e vinha, a chuva insistia em não aparecer, e o sol escaldava pelo asfalto de fora. Depois do almoço Adalberto foi para o quarto e se ajeitou. Calçou os tênis que tinha ganhado de aniversário – de marca cara que nem o dos outros guris – vestiu a blusa que fora do primo – de marca cara que nem a dos outros guris - passou gel nos cabelos, pensou em masturbação, em calor, em feijão, em natal, em ir para o vizinho depois da compra-obrigada. No espelho sua imagem penetrava em seus olhos tão confusos – tanta coisa para pensar e um porta-retrato idiota. Ficou se olhando por muitos instantes, tentando encontrar, sem saber, algum sentido e alguma beleza embaixo da pele vermelha. Despertou da própria não-admiração e passou pela cozinha para dar tchau para a mãe - a vó, encolhida, decorava os panetones.

- To indo mãe. – falou meio rabugento; e quando não era.

- Tá, beijo Adi – silabou a mãe se virando de frente para a pia; que bom que ele não tinha que lavar a louça hoje então.

Saiu porta afora com os 2 pila amassado no bolso. Tinha bastante gente na rua, carro de propaganda, gente de propaganda, compra comprada por propaganda – calor. Eles moravam perto o suficiente do centro para não cansar indo a pé, logo surgiu mais gente na rua e mais propaganda e mais calor por causa dos prédios. O sol refletia na nuca de Adalberto e ele andava olhando para o chão admirando seus tênis novos; ele nem viu que o céu estava do azul mais azul-que-maravilha-de-dia pintado com nuvens brancas-que-maravilha-de-céu. Para ele tava tudo uma merda; ô vida difícil – pensava. O vizinho ia para a Disney na próxima semana – seus passos afobados desengonçados desenhavam pela calçada – e a Ceci tava ficando com outro guri. Passou por uma vitrine de vidro e ajeitou de relance seus cabelos – bem discreto porque ninguém pode ver – que vergonha.

O fogão tinha ficado bem sujo – acho que a Ana vai gostar do porta-retrato com a foto da família; pensava. A mãe de Adalberto era forte, robusta, educada e com bom senso – preciso limpar a varanda lá da frente antes da meia tarde que é quando o pessoal vai chegar. Estava de não-férias, porque agora tinha a casa, porque tinha tanta coisa para pensar; os presentes, o marido, a sua pele - comprara um creme na farmácia da Tati que era uma maravilha, segundo a Tati e segundo a propaganda do intervalo da novela. O cheiro de feijão foi substituído pelo de sapólio, e seus pés se moviam com facilidade reconhecendo todo ambiente da cozinha – o fogão estava realmente sujo. Parou por um instante, limpou o suor do rosto:

- Tá dando certo mãe?

A velha que ouvia o barulho do bom-bril, concentrada nos seus belos panetones, resmungou um sorriso de afirmação e continuou atenta, com visão que quase não enxerga mais, derramando calda de chocolate que ela soube fazer tão bem um dia, mas que agora sua coluna não permitia. O hálito amargo debruçava-se sob a calda e as uvas passas. As crianças do vizinho agora brigavam alto, e o cachorro saiu correndo pelo pequeno pátio – tinha um papeleiro remexendo no lixo da frente – late, late, late.

- Teco, já pra dentro. – gritou a mãe de Adalberto com as mãos sujas de sabão. O Teco insistiu em se jogar sob o portão, até o papeleiro sair, a vó ficar irritada e a mãe fechar a porta da casa.

Os cabelos brancos não negavam, suas mãos trêmulas segurando a colher – e ela nem se importava mais com a pele. Queria que as filhas ficassem bem, e os netos, que tivessem mais famílias, e o marido falecido, que tivesse ido para o céu. Rezava baixinho todo momento; já era calada pela própria vida que criara ao seu redor. Não era tão dura quanto parecia, as não-aparências, o Natal era nascimento de Cristo: queria ir à missa das 6. Vivia porque era a última coisa que restara, que Jesus cristinho a protegesse, não do marasmo, nem da vida, nem da morte, de algo que não sabia, enquanto os latidos do cachorro a irritavam profundamente. As vezes virava para trás com dificuldade e cuidava dos movimentos da filha, como se soubesse fazer melhor - seu corpo enrugado nem podia - as vezes olhava pela janela e via o céu azul - nem se importava: aquilo não a pertencia.

Adalberto saiu do 1,99 com o porta-retratos numa sacola de plástico; a rua era barulhenta tanto quanto sua mente- os carros, as pessoas, as não-conversas, os anúncios. Uma nuvem estacionou por cima de sua cabeça - ele notou a sombra no chão e o alívio na nuca – e continuou o caminho de volta. Tinha encontrado a professora na esquina detrás. Aquela velha chata. Todo mundo da sala ria da berruga dela no ombro e das palavras dela ininteligíveis: riam e tinham sono. Tão distante deles. Tão próxima deles. Ele nem fazia questão de entender, passou na matéria colando do Neto – que seu pai não soubesse. Eram tantos os segredos, imagina os do pai, era tanta coisa que ele nem percebia que era e que faziam a confusão – e que confusão – Babilônia organizada, embalada por música de natal.

Adalberto levantou a cabeça e viu uma velinha corcunda carregando um monte de sacolas com presentes; ela ia vagarosa com a cara amarrada. A música de natal ficou mais alta – os alto falantes da loja, ela caminhando, o papai Noel passando calor mais pra frente, o homem de jaqueta jeans – sacolas – a mulher de salto alto falando no celular – pacotes – o moleque sujo sentado na calçada – esmolas. O porta-retratos balançava dentro do embrulho: missão cumprida - agora podia ir ao vizinho ver vídeo pornô, depois ir para casa comer o peru que a tia ia trazer e ser bem educado, muito obrigada pelo boné tio, muito obrigada pela camiseta vó. Olhou mais uma vez para a velhinha carrancuda, que passou por ele passo por passo enquanto a música se tornava extremamente alta - Jingle Bells Rock - e a neve era suor escorrido no rosto de todos. No verão brasileiro de 40 graus Adalberto voltou para casa, carregando um porta-retratos que ia abraçar uma foto – memórias – de gente que, feliz natal, nunca percebeu o céu.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Essa cosquinha na alma se chama gozo existencial. Eu sinto imenso prazer com gozo existencial.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

e a flecha do selvagem

Mais uma vez eu e eu em mim de mim. A Lagoa da Conceição fica enorme essa época do ano. Minha cópia de artista famoso cai em terra batida. Meu vegetarianismo vomita vendo tanta carne humana. Voltei da ponte com um gaúcho que fala demais; e que ama demais – sua barba engraçada envolve muita coisa. Dizem que a qualidade da água hoje foi insana. Meus amigos ficaram tropeçando com uma garrafa de vodka na rua. Uma parte do cardume urbano dorme, a outra se faz; uma parte da chuva cai e molha, a outra atravessa o continente e se refaz.

sábado, 4 de dezembro de 2010

buon giorno

Pois sinto saudades de olhar para o céu e sentir aquela sensação; e não que sensação me falte neste exato momento, mas aquelas que se vão deixam um perfume estranho no ar. É como rosas estaladas por um amor sem fim, é como um pássaro cortando o silencio de uma cidade à noite, bem devagarinho, é como o arrepio que me entrança pela nuca e que me faz te olhar, é como tudo que eu vejo agora e se vai. Então, às vezes, eu acredito mais na lua do que no sol, porque me traz essa ausência-que-sente das sensações que se sentiram, todas elas diferentes uma das outras, inclusive a que sinto agora. Eu brilho nos teus olhos, nunca tão anoitecida, negando a minha própria beleza interna, mas tem aquelas sensações ao meu redor, e aquela ausência – que se foram tão rapidamente: como pode haver tamanha crueldade? Piscam todas as estrelas para mim, num balé dentro de um buquê próprio – o buquê de estrelas – e eu o ofereço pra ti, com o braço bem estendido e os lábios prontos.