FELIZ NATAL
O cheiro de feijão requentado expandia pela cozinha apertada e escorria pelas paredes de madeira recém pintadas. A mãe de Adalberto mexia nas panelas com destreza, enquanto o cachorro puddle descansava ao lado da porta e a chuva insistia em se esconder. De quando em quando a avó abria o forno para ver os panetones quase prontos, bem douradinhos, e as vozes das crianças se misturavam com cheiro de panetone e feijão.
- Adalberto ! – gritou a mãe limpando as mãos com toalha de pano.
O guri chegou na cozinha patinando, no auge dos seus 16 anos, toda testosterona e as espinhas e o cabelo bem arrumado para as outras gurias perceberem.
- Tô com fome mãe. – respondeu a não-pergunta com voz de mudança. Mudança.
- Depois do almoço eu quero que tu vá lá no centro e me compre um porta-retrato para dar para tua tia de Natal, com aquela foto que nós revelamos ontem. – parou de dançar na frente da pia, olhou para o filho com ar de cobrança terna – Tá bom?
Ele fez uma cara de “pensar em hesitar”, mas aceitou a não-proposta – e quanta negação – balançando a cabeça para baixo com seu corpo esguio meio torto de tanto crescer.
- Vai lá naquele 1,99 que o pai comprou o rádio contigo o outro dia e pega 2 pila na minha bolsa. – continuou mãezinha querida se voltando para a sinfonia das panelas com chama e cheiro bom.
Eles almoçaram em um quase silêncio. O calor ia e vinha, a chuva insistia em não aparecer, e o sol escaldava pelo asfalto de fora. Depois do almoço Adalberto foi para o quarto e se ajeitou. Calçou os tênis que tinha ganhado de aniversário – de marca cara que nem o dos outros guris – vestiu a blusa que fora do primo – de marca cara que nem a dos outros guris - passou gel nos cabelos, pensou em masturbação, em calor, em feijão, em natal, em ir para o vizinho depois da compra-obrigada. No espelho sua imagem penetrava em seus olhos tão confusos – tanta coisa para pensar e um porta-retrato idiota. Ficou se olhando por muitos instantes, tentando encontrar, sem saber, algum sentido e alguma beleza embaixo da pele vermelha. Despertou da própria não-admiração e passou pela cozinha para dar tchau para a mãe - a vó, encolhida, decorava os panetones.
- To indo mãe. – falou meio rabugento; e quando não era.
- Tá, beijo Adi – silabou a mãe se virando de frente para a pia; que bom que ele não tinha que lavar a louça hoje então.
Saiu porta afora com os 2 pila amassado no bolso. Tinha bastante gente na rua, carro de propaganda, gente de propaganda, compra comprada por propaganda – calor. Eles moravam perto o suficiente do centro para não cansar indo a pé, logo surgiu mais gente na rua e mais propaganda e mais calor por causa dos prédios. O sol refletia na nuca de Adalberto e ele andava olhando para o chão admirando seus tênis novos; ele nem viu que o céu estava do azul mais azul-que-maravilha-de-dia pintado com nuvens brancas-que-maravilha-de-céu. Para ele tava tudo uma merda; ô vida difícil – pensava. O vizinho ia para a Disney na próxima semana – seus passos afobados desengonçados desenhavam pela calçada – e a Ceci tava ficando com outro guri. Passou por uma vitrine de vidro e ajeitou de relance seus cabelos – bem discreto porque ninguém pode ver – que vergonha.
O fogão tinha ficado bem sujo – acho que a Ana vai gostar do porta-retrato com a foto da família; pensava. A mãe de Adalberto era forte, robusta, educada e com bom senso – preciso limpar a varanda lá da frente antes da meia tarde que é quando o pessoal vai chegar. Estava de não-férias, porque agora tinha a casa, porque tinha tanta coisa para pensar; os presentes, o marido, a sua pele - comprara um creme na farmácia da Tati que era uma maravilha, segundo a Tati e segundo a propaganda do intervalo da novela. O cheiro de feijão foi substituído pelo de sapólio, e seus pés se moviam com facilidade reconhecendo todo ambiente da cozinha – o fogão estava realmente sujo. Parou por um instante, limpou o suor do rosto:
- Tá dando certo mãe?
A velha que ouvia o barulho do bom-bril, concentrada nos seus belos panetones, resmungou um sorriso de afirmação e continuou atenta, com visão que quase não enxerga mais, derramando calda de chocolate que ela soube fazer tão bem um dia, mas que agora sua coluna não permitia. O hálito amargo debruçava-se sob a calda e as uvas passas. As crianças do vizinho agora brigavam alto, e o cachorro saiu correndo pelo pequeno pátio – tinha um papeleiro remexendo no lixo da frente – late, late, late.
- Teco, já pra dentro. – gritou a mãe de Adalberto com as mãos sujas de sabão. O Teco insistiu em se jogar sob o portão, até o papeleiro sair, a vó ficar irritada e a mãe fechar a porta da casa.
Os cabelos brancos não negavam, suas mãos trêmulas segurando a colher – e ela nem se importava mais com a pele. Queria que as filhas ficassem bem, e os netos, que tivessem mais famílias, e o marido falecido, que tivesse ido para o céu. Rezava baixinho todo momento; já era calada pela própria vida que criara ao seu redor. Não era tão dura quanto parecia, as não-aparências, o Natal era nascimento de Cristo: queria ir à missa das 6. Vivia porque era a última coisa que restara, que Jesus cristinho a protegesse, não do marasmo, nem da vida, nem da morte, de algo que não sabia, enquanto os latidos do cachorro a irritavam profundamente. As vezes virava para trás com dificuldade e cuidava dos movimentos da filha, como se soubesse fazer melhor - seu corpo enrugado nem podia - as vezes olhava pela janela e via o céu azul - nem se importava: aquilo não a pertencia.
Adalberto saiu do 1,99 com o porta-retratos numa sacola de plástico; a rua era barulhenta tanto quanto sua mente- os carros, as pessoas, as não-conversas, os anúncios. Uma nuvem estacionou por cima de sua cabeça - ele notou a sombra no chão e o alívio na nuca – e continuou o caminho de volta. Tinha encontrado a professora na esquina detrás. Aquela velha chata. Todo mundo da sala ria da berruga dela no ombro e das palavras dela ininteligíveis: riam e tinham sono. Tão distante deles. Tão próxima deles. Ele nem fazia questão de entender, passou na matéria colando do Neto – que seu pai não soubesse. Eram tantos os segredos, imagina os do pai, era tanta coisa que ele nem percebia que era e que faziam a confusão – e que confusão – Babilônia organizada, embalada por música de natal.
Adalberto levantou a cabeça e viu uma velinha corcunda carregando um monte de sacolas com presentes; ela ia vagarosa com a cara amarrada. A música de natal ficou mais alta – os alto falantes da loja, ela caminhando, o papai Noel passando calor mais pra frente, o homem de jaqueta jeans – sacolas – a mulher de salto alto falando no celular – pacotes – o moleque sujo sentado na calçada – esmolas. O porta-retratos balançava dentro do embrulho: missão cumprida - agora podia ir ao vizinho ver vídeo pornô, depois ir para casa comer o peru que a tia ia trazer e ser bem educado, muito obrigada pelo boné tio, muito obrigada pela camiseta vó. Olhou mais uma vez para a velhinha carrancuda, que passou por ele passo por passo enquanto a música se tornava extremamente alta - Jingle Bells Rock - e a neve era suor escorrido no rosto de todos. No verão brasileiro de 40 graus Adalberto voltou para casa, carregando um porta-retratos que ia abraçar uma foto – memórias – de gente que, feliz natal, nunca percebeu o céu.
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