domingo, 12 de junho de 2011

O metro do amor e um pedaço de fita dentro do bolso

Um grito atravessou o teto do Aeroporto Salgado Filho. O grito parecia uma fita. Uma fita de cetim.

Ela dava voltas pelo espaço vazio do salão, pelos pilares e pelos metais da construção. Dela caiam pingos coloridos sob os bustos da gente preta e branca. Dela caíam minhas quatro estações, meus tantos centímetros de vaidade, as ruas charmosas da cidade, o amor de sinhá moça e seus olhos em verdade.

O grito. Tinha as cores mais inimagináveis que se pode suspirar. Tinha sons e batuques que se pode abraçar. Os sons do que é doce. O doce do pássaro, da terra, das folhas que farfalham, da densidade dos pingos, da bananeira sei não, do outono sei sim. Tudo em uma fita.

E uma fita de cetim. Do cetim saiam uns ramos, dos ramos brotavam flores, das flores caíam sementes. Os olhos ramificados e um grito que brota com raiz. Tinha os frutos vindos do âmago de Gaia para dentro de um aeroporto cinza cálido. Um grito em tecnicolor.

As cores em fita, as flores de chita, os pingos coloridos. Alguns molhavam meus lábios acostumados a outro, alguns formavam poças de cores sob mármore dos pés que marcham, alguns nem sequer desatam, continuam presos no cetim que brilha longe, enquanto o grito pulsa nesse sentido, de dentro para fora, do meu coração. Os ramos, as folhas, os frutos do fruto. A fita. O vão.

O grito se estendeu até o fim do salão gigante, passou e adentrou as lojas da gente grande, molhando o ar, os sons que emanava e as poças que formava. Também a seiva, meu pescoço, as voltas, as veias, a beleza das tintas suspirando para dentro de mim e o cálido do amor molhando todo o resto de nanquim.

Era um grito do avesso. Empresa alguma vende esse vôo. O grito mais silencioso, invisível e deslumbrante que um aeroporto pode decolar. Ele aparece por surpresa, te abraça por detrás e te enrola no cetim, bem devagar. O grito que atravessa o Aeroporto Salgado Filho nessa segunda-feira destoada me amarra num embarque.

Eu guardo minhas claves, costuro minhas veias e respiro ar novo. Eu silencio meu ventre, trancafio meus medos e desato teus laços. Enquanto o brilho das luzes subsituem a razão, a cidade borbulha o frio da vida sem sol, os pássaros me sussurram intenções trocadas, a intuição segue meus dedos nesse céu, eu me vou; adelante. Mordisco meus lábios lambusados de tinta, abro meus braços , abro minha boca e grito junto.

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